Boqueirão

Biblioteca comunitária no Boqueirão amplia horário de funcionamento

Interior da biblioteca comunitária no Boqueirão

Na Rua Emiliano Perneta, a duas quadras do terminal do Boqueirão, funciona há três anos uma biblioteca que não aparece em nenhum mapa oficial da prefeitura. O espaço ocupa a sala da frente de uma casa alugada por uma associação de moradores; as estantes são de madeira reaproveitada; o acervo chegou inteiro por doação. Em maio, depois de uma campanha com mais de 400 assinaturas, o horário de funcionamento foi ampliado: terças e quintas, das 14h às 20h.

A Biblioteca Comunitária do Boqueirão nasceu de uma lista de desejos. Em 2023, moradores do bairro participaram de uma oficina sobre planejamento urbano e apontaram a falta de espaços de leitura acessíveis — a biblioteca pública mais próxima fica a quatro quilômetros e fecha às 17h nos dias úteis. Um grupo de oito pessoas decidiu não esperar: alugou a sala, pintou as paredes de verde-claro e colocou um cartaz na calçada: "Traga um livro, leve outro".

O que tem nas prateleiras

Hoje o acervo conta com cerca de 1.200 títulos — romance, poesia, infantil, não-ficção, gibis. Não há sistema informatizado: um caderno na entrada registra quem pegou o quê. A devolução é por confiança. "Perdemos uns quinze livros no primeiro ano", conta Júlia Ferreira, uma das fundadoras. "Depois estabilizou. As pessoas cuidam do que é delas também."

As doações vêm de vizinhos, de feiras de troca e de uma parceria informal com uma livraria usada do Centro que descarta exemplares em bom estado. Há uma seção infantil que cresceu 40% no último ano, segundo contagem feita pelas voluntárias em abril.

"Meu filho de oito anos nunca tinha entrado numa biblioteca. Agora vai toda quinta depois da escola. Para ele, ler deixou de ser lição de casa."

Além dos livros, o espaço oferece roda de leitura aos sábados de manhã — para crianças de quatro a dez anos — e um clube do livro mensal para adultos. A participação é gratuita e não exige cadastro prévio.

A campanha que mudou o horário

Até abril, a biblioteca abria apenas às quartas e sábados, das 10h às 16h. O problema: muita gente que trabalha fora não conseguia chegar a tempo. Estudantes do turno integral também ficavam de fora. Uma moradora, professora aposentada, organizou uma petição online pedindo abertura noturna pelo menos dois dias por semana.

A petição juntou 437 assinaturas em três semanas. Foi entregue à associação de moradores, que aprovou o custo extra de luz e de um voluntário adicional para as noites. Não houve verba pública — tudo saiu de doações mensais de R$ 20 a R$ 50 de moradores que apoiam o projeto.

Na primeira terça com horário estendido, 34 pessoas passaram pela biblioteca — o dobro da média de uma quarta comum. Entre elas, seis adolescentes que usaram o espaço para estudar para o vestibular. "Silêncio, mesa e tomada. É o que a gente precisa", disse um deles, de 17 anos.

Desafios que continuam

O aluguel da sala consome a maior parte do orçamento mensal — R$ 1.800. A associação negocia com o proprietário uma renovação do contrato em condições semelhantes, mas não há garantia. Há conversas com a prefeitura sobre ceder um espaço em um centro comunitário municipal, mas o trâmite burocrático pode levar meses.

Falta também acessibilidade: a entrada tem três degraus e não há rampa. As voluntárias reconhecem o problema e buscam parceria com um programa de engenharia da UFPR para projetar uma adaptação de baixo custo.

Como participar

Doar livros é simples: basta levar na hora do funcionamento ou combinar retirada pelo perfil da biblioteca nas redes sociais. Quem quiser ser voluntário — receber visitantes, organizar estantes, mediar a roda de leitura — pode se inscrever numa lista na entrada ou escrever para o e-mail da associação, divulgado no cartaz da calçada.

A biblioteca comunitária não substitui o serviço público. Mas enquanto o serviço público não chega com horário e proximidade que o bairro precisa, iniciativas como essa mostram que moradores organizados conseguem preencher lacunas — com livros emprestados, caderno de registro e muita disposição.

Atualizado em 10 jun 2026: número de assinaturas da petição revisado após conferência com a organizadora.