Mobilidade

Ciclovias e mobilidade local: o que mudou nos últimos meses

Ciclovia urbana em Curitiba

Curitiba sempre se vendeu como cidade da bicicleta, mas quem pedala no dia a dia sabe que a realidade é mais complicada. Nos últimos seis meses, porém, algo mudou: novos trechos de ciclovia e ciclofaixa começaram a se conectar de forma mais contínua entre o Centro, o Água Verde e o Batel — e o perfil de quem usa a bike deixou de ser só o ciclista de lazer do domingo.

O trecho mais comentado é o da Avenida República Argentina, entre a Praça Osório e a Rua Brigadeiro Franco. A ciclofaixa pintada no asfalto separa o fluxo de carros por cones removíveis — solução provisória que a prefeitura prometeu substituir por estrutura fixa até setembro. No horário de pico, entre sete e nove da manhã, contabilizamos em média 120 ciclistas por hora numa contagem feita em três dias úteis.

Quem está pedalando

Conversamos com 18 ciclistas nesse trecho. A maioria usa a bicicleta para ir ao trabalho — escritórios no Batel, comércio no Centro, clínicas no Água Verde. Três eram entregadores de aplicativo; dois, estudantes universitários. Ninguém usava equipamento de competição: bicicletas simples, muitas sem marcha.

Camila, 34 anos, administradora, passou a pedalar em março. "Morava perto do terminal e nunca tinha pensado em bike. A ciclofaixa me deu coragem. Economizo quarenta minutos por dia e não dependo mais do horário do ônibus lotado." Ela pedala da Vila Izabel até o Batel, cerca de quatro quilômetros.

"A infraestrutura ainda é remendada, mas pela primeira vez dá para imaginar ir de bike sem sentir que está arriscando a vida."

Outro perfil em ascensão: pais e mães que levam crianças à escola em bicicletas com cadeirinha. Na Rua Padre Anchieta, próximo ao Bosque do Papa, há um trecho compartilhado com pedestres que funciona razoavelmente bem no início da manhã, quando o fluxo ainda é baixo.

Onde ainda dói

Nem tudo é progresso. Na esquina da República Argentina com a Visconde de Guarapuava, carros estacionados invadem a ciclofaixa com frequência. Ciclistas precisam desviar para a faixa de ônibus, gerando atrito com motoristas. A prefeitura instalou duas placas de proibição de estacionamento, mas sem fiscalização regular o problema persiste.

Comerciantes de algumas ruas laterais reclamam da perda de vagas de estacionamento quando as ciclofaixas foram pintadas. Um bar na Brigadeiro Franco diz que o movimento de clientes caiu 12% no primeiro mês — número que não conseguimos verificar de forma independente, mas que apareceu em reunião de bairro que acompanhamos.

Há também a questão da manutenção. Buracos e rachaduras em trechos antigos da ciclovia do Parque Barigui continuam sem reparo há meses. Ciclistas relatam pneus furados e quedas em dias de chuva, quando a sinalização horizontal some debaixo d'água.

Integração com o transporte coletivo

Um ponto positivo pouco divulgado: os terminais do Pinheirinho e do Boqueirão ganharam bicicletários cobertos com capacidade para 40 bikes cada. O uso ainda é tímido — menos de 30% de ocupação nas manhãs que medimos —, mas moradores que combinam bike + ônibus relatam economia de tempo significativa.

A URBS, empresa de transporte coletivo, informou que estuda ampliar a capacidade dos bicicletários nos terminais do Centro e do Portão até o fim do ano. Não há prazo oficial.

O que vem por aí

Para o segundo semestre, a prefeitura anunciou a extensão da ciclovia da Orla do Rio Barigui em direção ao São Francisco — trecho de cerca de dois quilômetros que ligaria bairros residenciais a uma das áreas verdes mais usadas da cidade. Moradores do São Francisco organizaram uma audiência pública para discutir o projeto em julho.

Enquanto isso, quem já pedala recomenda o básico: luz dianteira e traseira, capacete e paciência nas interseções. A infraestrutura melhorou, mas Curitiba ainda está longe de ser Amsterdam. O caminho, literalmente, está sendo construído — pedalada por pedalada.

Atualizado em 30 mai 2026: dados de ocupação dos bicicetários revisados conforme levantamento da URBS.